Você percebe que seu filho chega cada vez mais perto da televisão, aperta os olhos para enxergar a lousa ou aproxima o celular do rosto?
Esses comportamentos podem parecer apenas hábitos, mas também podem ser sinais de miopia.
E esse problema está se tornando cada vez mais comum entre crianças e adolescentes.
Uma grande análise internacional publicada recentemente reuniu dados de mais de 5 milhões de crianças e adolescentes e estimou que a prevalência global de miopia passou de cerca de 24% nas décadas anteriores para aproximadamente 36% nos dados mais recentes analisados. Mantida a tendência, a projeção é chegar perto de 40% das crianças e adolescentes em 2050.
Mas por que isso está acontecendo?
A resposta não está em um único motivo.
O que é miopia?
A miopia é uma alteração visual em que a pessoa consegue enxergar objetos próximos com mais facilidade, mas apresenta dificuldade para enxergar de longe.
Na maioria dos casos, isso acontece porque o olho cresce mais no sentido do comprimento. Dessa forma, a luz é focalizada antes de atingir corretamente a retina, fazendo com que objetos distantes pareçam embaçados.
Na infância, existe uma preocupação adicional: como o olho ainda está crescendo, a graduação pode aumentar ao longo dos anos.
Quanto mais cedo a miopia aparece, maior pode ser o período disponível para sua progressão.
A genética tem influência?
Sim.
Ter pai ou mãe com miopia aumenta o risco de uma criança também desenvolver o problema.
O International Myopia Institute considera o histórico familiar um fator de risco importante. Mas os próprios pesquisadores destacam que a genética não consegue explicar sozinha o rápido crescimento dos casos observado nas últimas décadas.
Os genes de uma população não mudaram drasticamente em apenas algumas décadas.
O estilo de vida, por outro lado, mudou muito.
E é justamente aí que entram alguns dos principais fatores atualmente estudados.
Crianças estão passando menos tempo ao ar livre
Esse é um dos pontos com evidência mais consistente.
Pesquisas mostram que passar mais tempo ao ar livre está associado a um menor risco de desenvolver miopia durante a infância. O International Myopia Institute considera o tempo externo um dos principais fatores modificáveis de proteção contra o início da miopia.
Atualmente, a recomendação clínica do IMI é estimular aproximadamente duas horas por dia de atividades ao ar livre, principalmente durante a infância.
A Organização Mundial da Saúde também incentiva que crianças passem mais tempo fora de casa como parte das estratégias para prevenir ou retardar o aparecimento da miopia.
Por que ficar ao ar livre ajuda?
Os pesquisadores ainda estudam os mecanismos exatos.
Uma das hipóteses mais importantes envolve a intensidade da luz natural. Ambientes externos costumam apresentar níveis de luminosidade muito maiores do que ambientes fechados.
Estudos experimentais sugerem que a luz intensa pode influenciar mecanismos da retina relacionados ao crescimento do olho, incluindo a liberação de dopamina retinal. Porém, em humanos, os mecanismos ainda não estão completamente definidos.
Na prática, a mensagem para os pais é mais simples:
brincar fora de casa faz bem para a visão.
E o benefício existe mesmo em dias nublados.
E o celular? Ele está deixando as crianças míopes?
Aqui precisamos evitar uma explicação simplista.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou uma associação entre maior tempo diário diante de telas e maior risco de miopia. O aumento do risco foi mais evidente entre aproximadamente uma e quatro horas de exposição diária.
Outra meta-análise também identificou associação significativa entre exposição a telas e miopia em crianças e adolescentes.
Porém, associação não significa que o celular sozinho seja responsável pelo problema.
O próprio International Myopia Institute destaca que ainda não está totalmente claro se dispositivos digitais constituem um fator independente ou se representam simplesmente uma nova forma de atividade prolongada de perto.
Em outras palavras, o problema provavelmente não é apenas “a tela”.
Pode ser a combinação de:
- Muitas horas olhando para perto;
- Poucas pausas;
- Celular utilizado muito próximo do rosto;
- Longos períodos dentro de casa;
- Menos brincadeiras ao ar livre.
Livros também podem entrar nessa conta
Sim.
Quando falamos de atividades de perto, não estamos falando apenas de celular e tablet.
Leitura, escrita, tarefas escolares e outras atividades realizadas muito próximas dos olhos também podem fazer parte dessa rotina.
O IMI aponta que atividades prolongadas de perto estão associadas ao desenvolvimento da miopia e recomenda evitar distâncias muito curtas e períodos contínuos muito longos de leitura ou uso de telas.
Isso não significa que uma criança deve ler menos.
Significa que devemos equilibrar a rotina.
Estudar é importante.
Ler é importante.
Brincar fora também é.
Então devo proibir o celular?
Não é necessário transformar o aparelho no vilão.
O mais interessante é organizar hábitos mais saudáveis.
Algumas atitudes podem ajudar:
Incentive atividades ao ar livre
Sempre que possível, tente incluir tempo externo diariamente.
Parque, bicicleta, futebol, caminhada, brincadeiras no quintal ou qualquer atividade adequada à idade.
A recomendação atual do International Myopia Institute é buscar aproximadamente duas horas diárias ao ar livre.
Evite longos períodos olhando para perto
Depois de estudar, ler ou usar dispositivos por algum tempo, incentive a criança a levantar os olhos e observar objetos distantes.
O IMI recomenda pausas regulares e mudanças na distância de foco durante atividades de perto.
Observe a distância do celular
Uma criança que segura a tela praticamente encostada ao rosto passa longos períodos realizando um esforço visual muito próximo.
O ideal é evitar distâncias extremamente curtas.
Não substitua todas as brincadeiras por telas
O problema não está apenas nas horas diante do celular, mas também no que essas horas estão substituindo.
Se o tempo de tela ocupa justamente o período que poderia ser passado ao ar livre, a rotina reúne dois fatores potencialmente desfavoráveis ao mesmo tempo.
Quais sinais podem indicar miopia infantil?
A criança pode não perceber que está enxergando mal.
Para ela, aquela pode ser simplesmente a forma normal de enxergar o mundo.
Por isso, pais e professores precisam observar alguns comportamentos.
Fique atento se a criança:
- Aperta os olhos para enxergar de longe;
- Senta muito perto da televisão;
- Aproxima telas ou livros;
- Reclama que não consegue enxergar a lousa;
- Pede para sentar mais perto da frente da sala;
- Apresenta dores de cabeça frequentes;
- Parece distraída durante atividades que exigem visão de longe;
- Reconhece pessoas apenas quando estão próximas.
Uma avaliação visual é necessária para confirmar se existe miopia ou outra alteração.
Por que identificar cedo é tão importante?
A preocupação com a miopia infantil vai além de simplesmente precisar usar óculos.
A miopia pode progredir durante o crescimento, e graus mais elevados estão associados a maior risco de problemas oculares ao longo da vida. É por isso que especialistas vêm dando cada vez mais atenção não apenas à correção da visão, mas também ao acompanhamento da progressão.
Hoje existem estratégias específicas para controle da miopia em algumas crianças, incluindo determinados desenhos de lentes, lentes de contato e tratamentos farmacológicos. A indicação depende da idade, da graduação, da velocidade de progressão e da avaliação profissional.
Por isso, não existe uma solução igual para todas as crianças.
Óculos fazem a miopia aumentar?
Não.
Esse é um mito que ainda preocupa muitos pais.
Quando uma criança recebe uma graduação adequada, os óculos permitem que ela enxergue corretamente.
Deixar de utilizar a correção recomendada não faz o olho “ficar mais forte”. Na verdade, o International Myopia Institute recomenda que crianças com miopia utilizem a correção prescrita conforme orientação profissional.
Se a graduação aumenta ao longo dos anos, isso geralmente está relacionado à progressão natural da miopia durante o crescimento, e não ao fato de a criança ter começado a usar óculos.
A rotina moderna exige novos cuidados
A geração atual cresceu em um ambiente visual muito diferente daquele vivido por seus pais.
Mais celulares.
Mais tablets.
Mais computadores.
Mais tarefas realizadas em ambientes fechados.
E, em muitos casos, menos tempo brincando ao ar livre.
A ciência ainda continua investigando o peso exato de cada fator. Mas existe uma mensagem bastante consistente nas evidências atuais:
mais tempo ao ar livre é uma das medidas mais simples e importantes para ajudar a reduzir o risco de surgimento da miopia infantil.
Além disso, equilibrar atividades de perto, fazer pausas e acompanhar regularmente a visão da criança também são atitudes importantes.
Seu filho está enxergando bem?
Não espere necessariamente uma reclamação.
A criança pode se adaptar à visão embaçada, aproximar os objetos e seguir sua rotina sem perceber que existe uma dificuldade visual.
Se você notou algum dos sinais mencionados, procure uma avaliação completa da saúde ocular.
Depois da avaliação e da prescrição, conte com as Óticas Di Fiori para encontrar uma solução adequada para a criança.
Nossa equipe pode ajudar na escolha de uma armação confortável, resistente e apropriada ao rosto infantil, além de orientar sobre as opções de lentes disponíveis de acordo com a prescrição e a rotina.
Óculos infantis precisam funcionar na escola, nas brincadeiras e em todos os momentos do dia — não apenas ficar bonitos no rosto.
Cuidar da visão durante a infância é ajudar a criança a enxergar melhor tudo o que ainda está aprendendo a descobrir.
Fale com um especialista.